domingo, 9 de julho de 2017

Depressão: Fique alerta com as principais causas



Publicado originalmente no site Sou de Sergipe, em 8 de julho de 2017.

Depressão: Fique alerta com as principais causas.

Entenda como evitar esse mal identificando predisposições à doença.

Por Izaque Vieira.

A depressão é um problema que não tem hora nem lugar para aparecer. Pode aparecer em qualquer pessoa independente do sexo, idade, condição social ou econômica.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que até 2030 a depressão será a doença mais comum do mundo, afetando mais pessoas do que qualquer outro problema de saúde, incluindo câncer e doenças cardíacas.

Porém, apesar disso, a ciência mostra que alguns fatores podem facilitar o aparecimento dessa patologia.

Veja abaixo os gatilhos mais comuns da depressão e saiba como evita-los ou trata-los para fugir dessa doença maléfica.

Neurotransmissores alterados

Pessoas com taxas muito alteradas de determinados neurotransmissores, como serotonina e noradrenalina, tem mais chances de sofrer depressão. Segundo o psiquiatra do Hospital Santa Cruz Edson Hirata, isso acontece justamente por que a doença se desenvolve por conta da falta desses neurotransmissores, que são responsáveis pela comunicação entre os neurônios na área do cérebro responsável pelas emoções – o sistema límbico.

Quando uma pessoa nasce com esses neurotransmissores naturalmente baixos, o sistema límbico e sua percepção das emoções ficam comprometidos, podendo causar a depressão.

Genética

Os especialistas afirmam que a genética tem forte influência no desenvolvimento da depressão. Estudos mostram que se um dos pais tem depressão o risco do filho sofrer dessa doença é três vezes maior. Se ambos os pais tem depressão, o risco do filho desenvolver depressão é de 75%.

As Mulheres sofrem mais

Por conta da instabilidade hormonal a que estão sujeitas, as mulheres têm o dobro de chance de vir a desenvolver o distúrbio. Além disso, as mulheres estão mais sujeitas à ocorrência de eventos estressantes, como o parto.

Atenção aos idosos

Estudos comprovam que a incidência da doença é maior entre a população idosa. De acordo com os psiquiatras, o fato de idosos terem mais doenças físicas, usarem mais medicamentos e frequentemente ficarem mais isolados socialmente aumenta o risco de depressão nesta faixa etária.

Por isso, fique atento aos seus parentes com idade mais avançada, principalmente àqueles que moram sozinhos. A atenção a esse público é de fundamental importancia.

Traumas

Situações traumatizantes como sequestros, abuso sexual e violência são pontos chave para o surgimento da depressão, principalmente em pessoas que tenham antecedentes familiares da doença.

Pesquisas recentes mostraram que crianças vítimas de violência e abuso sexual têm risco aumentado de desenvolver depressão quando se tornam adultas, porém, vale lembrar que esse tipo de evento pode acontecer em qualquer momento da vida. Por isso é importante o acompanhamento médico na fase pós-traumática, a fim de que ele oriente a vítima e evite o desenvolvimento dessa patologia.

Eventos estressantes

Bom ou ruim, qualquer tipo de evento estressante, pode desencadear depressão. Desde muita pressão no trabalho, até organizar um casamento, passando por problemas familiares, estresse com os estudos, divórcios e gravidez. Lembrando que nesses casos a incidência também é maior em pessoas que tenham parentes próximos com depressão.

Medicamentos e seus efeitos colaterais

De acordo com especialistas no assunto inúmeros medicamentos podem levar a depressão, merecendo destaque os medicamentos para emagrecer como anfepramona, fenproporex e os derivados de anfetamina.

Abuso de álcool e outras drogas

Drogas levam a uma sensação de euforia por conta descarga de neurotransmissores como dopamina, serotonina e noradrenalina. O consumo de álcool e outras drogas como cocaína, lança perfume são importantes gatilhos para depressão.
Após algumas horas, quando o efeito das drogas diminui, nosso organismo sofre uma queda brusca dessas substâncias, o que explica porque a pessoa sente uma profunda tristeza após o uso de drogas.

Izaque Vieira/Redação Portal Sou de Sergipe.

Texto e imagem reproduzido do site: soudesergipe.com.br

sábado, 17 de junho de 2017

A última longa entrevista de Sigmund Freud


A última longa entrevista de Sigmund Freud

Por Carlos Willian Leite.

Sigmund Freud (1856-1939), o judeu austríaco fundador da psicanálise, formou-se em medicina em Viena. Aperfeiçoou seus estudos em Paris, com Jean-Marie Charcot, que usava a hipnose como tratamento para a histeria. Ao romper com Charcot e com a prática da hipnose, Freud se deparou com o mecanismo de defesa dos pacientes e pode então desenvolver a teoria do inconsciente e sua própria técnica terapêutica, baseada na livre associação de ideias. Para o médico austríaco, a neurose adulta era resultado da sexualidade infantil. Em 1900, Freud publicou “A Interpretação dos Sonhos”, seu primeiro trabalho revolucionário — obra que ele havia terminado anos antes mas que guardou para lançá-la no despertar de um novo século. Ele tinha razão ao adiá-lo: o século 20 foi o tempo de Sigmund Freud. Em 1938, quando os nazistas anexaram a Áustria, depois de terem banido a psicanálise da Alemanha, Freud imigrou para a Inglaterra em companhia de sua Anna, que se tornaria conhecida como psicóloga infantil. Freud morreu de câncer na garganta.

Entrevista conduzida por George Sylvester Viereck, publicada no seu livro: “Glimpses of the Great”, publicado em 1930, e republicada no livro: “A Arte da Entrevista: Uma Antologia de 1823 aos Nossos Dias,” organizado por Fábio Altman (Scritta 1995).

“Setenta anos de idade me ensinaram a aceitar a vida com alegre humildade.”

Quem fazia essa declaração era o professor Sigmund Freud, o grande explorador austríaco do lado oculto da alma. Assim como o trágico herói grego Édipo, cujo nome está tão intimamente ligado aos princípios fundamentais da psicanálise, Freud confrontou a Esfinge sem receio. Como Édipo, ele decifrou o enigma. Pelo menos, nenhum mortal chegou tão perto dos segredos do comportamento humano quanto Freud.

Freud é para a psicologia o que Galileu foi para a astronomia. É o Cristóvão Colombo do inconsciente. Ele abre novas perspectivas, sonda novas profundezas. Freud alterou todas as relações na vida, decifrando o sentido oculto das regras do inconsciente. Conversamos na casa de veraneio de Freud em Semmering, uma montanha nos Alpes Austríacos, onde os vienenses elegantes adoram se reunir. A última vez que vira o pai da psicanálise, ele estava em sua casa simples na capital austríaca. Os poucos anos que separavam a minha última visita desta de agora multiplicaram as rugas na sua testa e aumentaram a sua palidez acadêmica. Seu rosto estava abatido, sofrido. A mente estava ativa, o espírito firme, a cortesia impecável como sempre, mas uma leve problema de fala me preocupou.

Parece que uma doença maligna no maxilar superior necessitara de uma operação. Desde então, Freud usa um aparelho mecânico para facilitar a fala. Na verdade, não há diferença entre o uso desse aparelho ou de óculos. Ele deixa Freud mais constrangido do que os visitantes. Depois que conversamos com ele por algum tempo, o aparelho se torna quase imperceptível. Nos dias em que Freud está bem, nem se percebe a presença dele. Mas para Freud, ele é causa de constante irritação.

Sigmund Freud — Eu detesto o meu maxilar mecânico porque a luta com o mecanismo consome uma força preciosa. Mas é melhor ter um maxilar mecânico do que nenhum. Ainda prefiro viver a morrer. Talvez os deuses sejam generosos conosco, tornando a vida mais desagradável à medida em que envelhecemos. No final, a morte parece mais tolerável do que os muitos problemas que temos que enfrentar.

(Freud se recusa a admitir que o destino tenha sido rancoroso com ele.)

Sigmund Freud — Por que, eu devia esperar por algum tipo de privilégio? A idade, com seus visíveis desconfortos, chega para todos. Ela atinge um homem aqui, outro lá. O seu golpe sempre atinge uma parte vital.

Sigmund Freud — Não me revolto contra a ordem universal, afinal vivi mais de setenta anos. Eu tive o que comer. Desfrutei de muitas coisas — do companheirismo da minha esposa, dos meus filhos, do pôr-do-sol. Eu vi as plantas crescerem na primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão amigo. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que quase me entendeu. O que mais eu posso querer?

George Sylvester Viereck — O senhor é famoso. O seu trabalho influencia a literatura de todo o mundo. O homem olha para si e para a vida com olhos diferentes por sua causa. E, há pouco tempo, quando o senhor fez 70 anos, o mundo se uniu para homenageá-lo — com exceção da sua própria universidade!

Sigmund Freud — Se a Universidade de Viena me aceitasse, eu teria me sentido muito constrangido. Não há razão para eles me aceitarem ou à minha doutrina porque eu estou com 70 anos. Não dou nenhuma importância ilógica aos números. A fama só chega quando já estamos mortos, e, para ser franco, o que acontece depois da morte não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. A minha modéstia não é nenhuma virtude.

George Sylvester Viereck — O fato do seu nome ser lembrado não significa nada para o senhor?

Sigmund Freud — Absolutamente nada, mesmo que ele seja realmente lembrado, o que não é certo. Eu estou mais interessado no destino dos meus filhos. Espero que a vida deles não seja tão difícil. Não posso torná-las muito mais fácil. A guerra praticamente acabou com a minha modesta fortuna, as economias de uma vida inteira. Entretanto, felizmente, a idade não pesa tanto para mim. Eu ainda sou capaz de seguir em frente! Meu trabalho ainda me dá prazer.
Sigmund Freud — Estou muito mais interessado nestas flores do que no que possa acontecer comigo depois que eu morrer.

George Sylvester Viereck — Então, no fundo, o senhor é um pessimista?

Sigmund Freud — Não, não sou. Só que eu não permito que nenhuma reflexão filosófica me tire a alegria das coisas simples da vida.

George Sylvester Viereck — O senhor acredita na continuidade do ser após a morte, seja lá de que maneira for?

Sigmund Freud — Eu não penso nesse assunto. Tudo o que nasce, um dia morre. Por que então eu também não morreria?

George Sylvester Viereck — O senhor gostaria de retornar à vida, assumindo uma nova forma? Em outras palavras, o senhor não gostaria de ser imortal?

Sigmund Freud — Para ser franco, não. Quem identifica as razões egoístas que se escondem sob o comportamento humano não tem a menor vontade de voltar. A vida, movendo-se em círculos, ainda seria a mesma. Além disso, mesmo que o eterno retorno de todas as coisas, como disse Nietzsche, nos vestisse com novas roupas, que utilidade isso poderia ter sem a memória? Não haveria ligação entre o passado e o futuro. No que me diz respeito, estou muito satisfeito em saber que o eterno absurdo de viver terminará um dia. Nossa vida se resume a uma série de obrigações, uma luta sem fim entre o ego e o seu ambiente. O desejo de um prolongamento excessivo da vida me parece absurdo.

George Sylvester Viereck — O senhor não aprova as tentativas do seu colega Steinach de prolongar o ciclo da existência humana?

Sigmund Freud — Steinach não faz nenhuma tentativa para prolongar a vida. Ele simplesmente luta contra a velhice. Ao aumentar a reserva de forças que temos dentro de nós, ele ajuda o corpo a resistir à doença. A operação de Steinach às vezes detém os acidentes biológicos, como o câncer, nos seus primeiros estágios. Ela toma a vida mais tolerável. Mas não a torna mais feliz. Não há razão para que o homem queira viver mais. Mas temos todas as razões para querer viver com o mínimo de desconforto possível. Sou bastante feliz, porque não sinto dores e sou grato aos pequenos prazeres da vida, aos meus filhos e às minhas flores!

George Sylvester Viereck — Bernard Shaw diz que vivemos muito pouco. Ele acha que, se quiser, o homem pode prolongar o tempo de vida humana, se a força de vontade suplantar as forças da evolução. A humanidade, segundo ele, pode recuperar a longevidade dos patriarcas.

Sigmund Freud — É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez os homens morram porque queiram morrer. Assim como o amor e o ódio pela mesma pessoa coexistem dentro de nós, a vida é uma mistura do desejo de viver com o desejo ambivalente de morrer. Da mesma forma que um elástico tende a voltar ao seu formato original, toda matéria viva, consciente ou inconscientemente, anseia pela inércia completa e absoluta da existência inorgânica. Os desejos de morrer e de viver convivem lado a lado dentro de nós. A Morte é a companheira do Amor. Juntos, eles governam o mundo. Essa é a mensagem do meu livro, Além do princípio do prazer. No início, a psicanálise achava que o Amor era o sentimento mais importante. Hoje, sabemos que a Morte tem a mesma importância. Biologicamente, todo ser humano, não importando a intensidade do seu desejo de viver, anseia pelo Nirvana, pela fim da febre chamada vida, pelo seio de Abraão. O desejo pode ser disfarçado por rodeios. Entretanto o objetivo final da vida é a própria extinção!

George Sylvester Viereck — Essa, exclamei, é a filosofia da autodestruição. Ela justifica o automassacre. Levaria à conclusão lógica do suicídio mundial previsto por Eduard von Hartmann.

Sigmund Freud — A humanidade não escolhe o suicídio, porque as leis da sua natureza não aceitam o caminho direto para a própria meta. A vida deve completar o seu ciclo de existência. Em qualquer ser humano normal, o desejo de viver é o bastante para compensar o desejo de morrer, embora, no final, o desejo de morrer prove ser mais forte. Nós podemos considerar a ideia de que a morte nos chega por vontade própria. É possível que derrotássemos a morte, não fosse pelo aliado que ela tem dentro de nós mesmos. Nesse sentido, talvez seja certo dizer que toda morte é um suicídio disfarçado.

George Sylvester Viereck — Em que o senhor está trabalhando?

Sigmund Freud — Estou escrevendo uma defesa da análise leiga, a psicanálise praticada por leigos. Os médicos querem tornar ilegal a análise feita pelos que não são médicos registrados. A história, essa velha plagiadora, se repete a cada nova descoberta. Os médicos, a princípio, combatem qualquer nova verdade. Depois eles tentam monopolizá-la.
George Sylvester Viereck — O senhor teve um grande apoio dos leigos?

Sigmund Freud — Alguns dos meus melhores alunos são leigos.

George Sylvester Viereck — O senhor pratica a psicanálise com muita frequência?

Sigmund Freud — Claro. Nesse exato momento, eu estou trabalhando em um caso difícil, esclarecendo os conflitos psíquicos de mais um paciente interessante. Minha filha também é uma psicanalista, como o senhor pode ver…

(Nesse momento, a senhorita Anua Freud surgiu seguida por seu paciente, um rapaz de 11 anos, de feições obviamente anglo-saxônicas. O menino parecia muito feliz, esquecido do conflito da própria personalidade.)

George Sylvester Viereck — O senhor se autoanalisa?

Sigmund Freud — É claro. O psicanalista deve se autoanalisar com frequência. Ao nos analisarmos, nos tornamos mais capazes de analisar outras pessoas. O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. As pessoas colocam a culpa dos seus pecados nele. Ele deve exercer a sua arte com perfeição para se livrar do peso colocado sobre ele.
George Sylvester Viereck — Sempre me pareceu que a psicanálise desperta em todos aqueles que a praticam o espírito da caridade cristã. Não há nada na vida humana que a psicanálise não nos permita entender.

Sigmund Freud — Pelo contrário — (enfureceu-se Freud, as feições assumindo a severidade arrebatada de um profeta hebreu) — entender não é perdoar. A psicanálise não apenas nos ensina o que temos que suportar, ela também ensina o que temos que evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância do mal não é, de maneira nenhuma, uma consequência do conhecimento.
(De repente eu entendi por que Freud brigara tão seriamente com os seguidores que o abandonaram, por que ele não consegue perdoar aqueles que se afastaram do caminho da psicanálise ortodoxa. O seu senso de integridade é uma herança dos seus ancestrais. Uma herança da qual ele se orgulha, assim como se orgulha da própria raça.)

Sigmund Freud — Minha língua é o alemão. Minha cultura, minhas conquistas são alemãs. Considerei-me um alemão do ponto de vista intelectual, até que percebi o crescimento do antissemitismo na Alemanha e na Áustria alemã. Desde então, não me considero mais um alemão. Prefiro me considerar um judeu.

George Sylvester Viereck — Estou feliz Professor, que o senhor também tenha os seus complexos, que o senhor também exponha a sua mortalidade.

Sigmund Freud — Os nossos complexos são a fonte da nossa fraqueza e, com frequência, também da nossa força.

George Sylvester Viereck — Quais seriam os meus complexos?

Sigmund Freud — Uma análise séria levaria, pelo menos, um ano. Talvez demorasse até mesmo uns dois ou três anos. O senhor tem dedicado muitos anos da sua vida à caça de leões. O senhor tem procurado, ano após ano, as grandes personalidades da sua geração, invariavelmente homens mais velhos.

George Sylvester Viereck — Isso é parte do meu trabalho.

Sigmund Freud — Mas também é uma preferência. O homem importante é um símbolo. A sua busca é afetiva. O senhor está à procura do homem importante que irá tomar o lugar do seu pai. Isso é parte do complexo que o senhor tem em relação ao seu pai.

(Neguei a afirmação de Freud com veemência. Entretanto, após refletir, parece-me que pode haver alguma verdade, insuspeita para mim, na sua sugestão casual. Talvez seja o mesmo impulso que me levou a ele.)

George Sylvester Viereck — No seu trabalho “O Judeu Errante”, o senhor estende essa busca ao passado. O senhor é o eterno Explorador do Homem. Eu queria poder ficar aqui durante o tempo que fosse necessário para ver o meu interior através dos seus olhos. Talvez, como a Medusa, eu morresse de medo ao ver minha própria imagem! Entretanto acho que conheço bastante a psicanálise. Eu iria prever, ou tentar prever, as suas intenções.

Sigmund Freud — A inteligência de um paciente não é um empecilho. Pelo contrário, às vezes, ela facilita o trabalho.

(Nesse aspecto, o mestre da psicanálise difere de muitos dos seus adeptos, que se ressentem de qualquer dedução feita pelos próprios pacientes sob os cuidados deles. A maioria dos psicanalistas emprega o método da “livre associação” de Freud. Eles encorajam o paciente a dizer qualquer coisa que lhes venha à cabeça, não importando o quanto o que dizem possa ser idiota, obsceno, inoportuno ou irrelevante. Seguindo pistas que parecem não ter importância, encontram os dragões psíquicos que assustam o paciente, afugentando-os. Eles não apreciam o desejo de cooperação ativa do paciente, pois têm medo que, quando descoberta a direção da sua investigação, os desejos e a resistência do paciente lutem inconscientemente para manter seus segredos, desviando o caçador psíquico da sua pista. Freud também reconhece esse perigo.)

George Sylvester Viereck — Às vezes eu penso se nós não seríamos mais felizes se conhecêssemos menos o processo que forma os nossos pensamentos e emoções. A psicanálise tira o encantamento da vida, quando segue a pista de cada um dos sentimentos até os seus complexos básicos. Não ficamos mais felizes ao descobrir nosso lado selvagem, criminoso e animal.

Sigmund Freud — O que o senhor tem contra os animais? A comunidade animal é infinitamente melhor do que a humana.

George Sylvester Viereck — Porquê?

Sigmund Freud — Porque os animais são muito mais simples. Eles não sofrem de personalidade dividida ou desintegração do ego, problemas que surgem da tentativa do homem de se adaptar a padrões de civilização que são sofisticados demais para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, assim como o animal, é cruel, mas ele não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições impostas a ele. É essa vingança que dá vida ao reformista profissional e às pessoas intrometidas. O selvagem pode cortar a sua cabeça, comê-lo, torturá-lo. Mas ele vai poupá-lo das pequenas provocações que, às vezes, tornam a vida em uma comunidade civilizada quase intolerável. Os hábitos e as idiossincrasias mais desagradáveis do homem, como a trapaça, a covardia e a falta de respeito, são produzidos pela sua adaptação incompleta a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura. As emoções intensas, diretas e simples de um cachorro, ao abanar o rabo ou latir quando é contrariado, são muito mais agradáveis! As emoções de um cachorro me fazem lembrar um dos heróis da antiguidade. Talvez seja por isso que nós inconscientemente damos aos cães nomes de heróis da antiguidade como Aquiles ou Heitor.
George Sylvester Viereck — Até mesmo o senhor, professor, acha a existência muito complexa. No entanto, me parece que o senhor mesmo é, em parte, responsável pela complexidade da civilização moderna. Antes que o senhor inventasse a psicanálise ninguém sabia que a personalidade era dominada por um exército beligerante de complexos bastante censuráveis. A psicanálise fez da vida um complicado quebra-cabeça.

Sigmund Freud — De jeito nenhum. A psicanálise simplifica a vida. Nós atingimos uma nova síntese depois da análise. A psicanálise cria uma nova ordem para o labirinto onde estão perdidos certos impulsos, e tenta conduzi-los para o lugar ao qual pertencem. Ou, usando outra metáfora, ela é o fio que conduz o homem para fora do labirinto do seu próprio inconsciente.

George Sylvester Viereck — Em uma visão superficial, parece, entretanto, que a vida humana nunca foi tão complexa. E, a cada dia, alguma nova ideia, apresentada pelo senhor ou por um dos seus discípulos, torna o problema do comportamento humano mais enigmático e contraditório.

Sigmund Freud — Pelo menos a psicanálise nunca fecha as portas para uma nova verdade.
George Sylvester Viereck — Alguns dos seus alunos, mais ortodoxos do que o senhor, se agarram a qualquer declaração que o senhor faça.

Sigmund Freud — A vida muda e a psicanálise também. Estamos só no princípio de uma nova ciência.

George Sylvester Viereck — Eu acho a estrutura científica que o senhor criou muito complexa. E os elementos dessa estrutura, como a teoria da substituição, da sexualidade infantil, do simbolismo dos sonhos, etc., parecem permanentes.

Sigmund Freud — No entanto, torno a dizer, nós só estamos começando. Sou apenas um principiante. Consegui trazer à tona muito do que estava enterrado nas camadas mais profundas da mente. Mas, enquanto eu só descobri alguns templos, outros podem descobrir um continente.

George Sylvester Viereck — O senhor ainda dá grande importância ao sexo?

Sigmund Freud — Eu respondo com as palavras do grande poeta Walt Whitman: “Mas não haveria nada, se não houvesse o sexo”. Entretanto, como já disse, hoje em dia, eu dou a mesma importância ao que está além do prazer — a morte, a negação da vida. Esse desejo explica porque alguns homens gostam da dor — ela representa um passo em direção à morte! O desejo da morte explica por que todos os homens procuram o descanso eterno, por que os poetas agradecem:
“Onde quer que os deuses estejam,
Não há vida que viva para sempre
Os homens mortos nunca renascem,
E até o rio mais enfastiado
Segue confiante na direção do mar”.

George Sylvester Viereck — Shaw, como o senhor, não deseja viver para sempre, mas ele acha o sexo desinteressante.

Sigmund Freud — Shaw (respondeu Freud, sorrindo), não entende o sexo. Ele não faz a mais remota ideia do que seja o amor. Não existe nenhum relacionamento amoroso real nas suas peças. Ele transforma o caso de amor de César — talvez a maior paixão da história — em uma piada. Deliberadamente, para não dizer maliciosamente, ele despe Cleópatra de todo o seu esplendor e a rebaixa à condição de uma mulher insignificante, petulante e exagerada. A razão para a estranha atitude de Shaw em relação ao amor e para a sua negação do impulso primordial de todas as ações humanas, o que tira de suas peças o atrativo universal apesar da sua grande inteligência, está na natureza da sua psicologia. Em um de seus prefácios, Shaw enfatiza o aspecto ascético da sua personalidade. Posso ter cometido muitos erros, mas tenho certeza que não errei ao enfatizar a predominância do instinto sexual. Porque o instinto sexual é tão forte que se choca com muita frequência contra as convenções e salvaguardas da civilização. A humanidade, em defesa própria, procura negar a importância suprema do sexo. Analise qualquer emoção humana, não importa o quanto ela esteja distante da esfera do sexo, e o senhor vai encontrar com certeza, em algum lugar, o impulso primordial, ao qual a própria vida deve a sua perpetuação.

George Sylvester Viereck — É certo que o senhor conseguiu incutir o seu ponto de vista sobre todos os escritores modernos. A psicanálise deu nova força à literatura.

Sigmund Freud — Ela também recebeu contribuições da literatura e da filosofia. Nietzsche foi um dos primeiros psicanalistas. É incrível o quanto a intuição dele se antecipou às nossas descobertas. Ninguém identificou com mais clareza as razões para o comportamento humano e a luta do princípio do prazer pelo eterno domínio. O seu Zaratustra diz:
“Desgraça
Grite: Vá
Mas o prazer implora por eternidade,
Implora insaciável, profunda eternidade”.

Pode ser que a psicanálise seja menos discutida na Áustria e na Alemanha do que nos Estados Unidos, mas a sua influência sobre a literatura, no entanto, é enorme. Thomas Mann e Hugo von Hofmansthal nos devem muito. Schnitzler acompanha, em grande parte, o meu desenvolvimento. Ele expressa através da poesia muito do que eu tento transmitir cientificamente. Mas o doutor Schnitzler não é apenas um poeta, ele é também um cientista.

George Sylvester Viereck — O senhor não é apenas um cientista, é também um poeta. A literatura americana está impregnada pela psicanálise. Rupert Hughes, Harvey O’Higgins e outros são seus intérpretes. É quase impossível abrir um novo romance recente sem encontrar alguma referência a psicanálise. Entre os dramaturgos, Eugene O’Neill e Sydney Howard devem muito ao senhor. “The Silver Cord” (O Cordão de Prata), por exemplo, é uma mera dramatização do complexo de Édipo.

Sigmund Freud — Eu sei disso, sou grato pelo reconhecimento, mas temo pela minha própria popularidade nos Estados Unidos. O interesse dos americanos pela psicanálise não é muito profundo. A grande popularidade leva à aceitação superficial sem uma pesquisa séria. As pessoas apenas repetem o que escutam no teatro ou leem nos jornais. Eles pensam que compreendem a psicanálise, porque conseguem repetir o nosso jargão! Eu prefiro o estudo mais intenso da psicanálise nos centros europeus. Os Estados Unidos foram o primeiro país a me reconhecer oficialmente. A Clark University me conferiu um grau honorário quando eu ainda estava condenado ao ostracismo na Europa. No entanto os Estados Unidos contribuíram muito pouco para o estudo da psicanálise. Os americanos são generalizadores inteligentes, mas raramente são pensadores criativos. Além disso, os médicos americanos, bem como os austríacos, tentam apropriar-se do campo. Deixar que a psicanálise permaneça somente nas mãos dos médicos será fatal para o seu desenvolvimento A formação médica pode ser tanto uma vantagem quanto uma desvantagem para o psicanalista. Ela é uma desvantagem quando certas convenções científicas aceitas se tornam arraigadas demais na mente do estudante.

(Freud precisa dizer a verdade a todo custo! Não consegue se forçar a lisonjear os Estados Unidos, onde tem a maioria dos seus admiradores. Não consegue, mesmo estando em desvantagem, fazer as pazes com a profissão médica, que até hoje o aceita com grande relutância. Apesar da sua integridade inflexível, Freud é muito cortês. Ele ouve qualquer sugestão com paciência, sem jamais tentar intimidar o entrevistador. É raro um convidado partir sem algum presente, uma lembrança da sua hospitalidade! A noite chegara. Estava na hora de pegar o trem de volta para a cidade que um dia abrigara o esplendor imperial dos Habsburgos. Freud, acompanhado pela esposa e pela filha, subiu a escada que ligava o seu retiro nas montanhas à rua, para se despedir de mim. Ele me pareceu triste e sombrio, quando acenou para mim.)

Sigmund Freud — Não me faça parecer um pessimista — (comentou depois do último aperto de mão) — Eu não desprezo o mundo. Expressar insatisfação para com o mundo é só uma outra maneira de cortejá-lo, para conseguir plateia e aplausos! Eu não sou um pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! As flores felizmente não têm personalidade ou complexidades. Adoro as minhas flores. E não sou infeliz — pelo menos, não mais do que outras pessoas.

(O apito do meu trem soou na noite. O carro me levou à estação com rapidez. Aos poucos, a figura levemente curvada e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram ao longe. Como Édipo, Freud olhou fundo nos olhos da Esfinge. O monstro propõe seu enigma para qualquer viajante. O andarilho que não souber a resposta será cruelmente agarrado e atirado contra as rochas. Mesmo assim, ela talvez seja mais gentil com aqueles que destrói do que com os que adivinham seu segredo.)

Texto e imagem reproduzidos do site: revistabula.com

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Nise da Silveira - entrevistado por Luiz Gonzaga Pereira dos Santos

Nise da Silveira.

Nise da Silveira - entrevistado por Luiz Gonzaga Pereira dos Santos

Uma mulher de muita vivência e que tem a idade das ilusões

Nise da Silveira é aquariana, nascida em 15 de fevereiro e diz ter a idade das ilusões, não revelando a idade. Alagoana, residente no Rio de Janeiro, tem uma história de vida pautada pelas polêmicas e "edificações" revolucionárias, no campo profissional.

Em 1946 fundou a seção da terapêutica ocupacional no Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro. Seis anos mais tarde, em 1952, também no Centro Psiquiátrico do Rio, fundou o Museu do Inconsciente que se transformou no importante centro de estudos e pesquisas que reúne obras produzidas nos ateliês de atividades expressivas (pintura e modelagem). O museu de Imagens do Inconsciente tornou-se conhecido em todo o mundo e suas pesquisas deram origem a exposições, filmes, documentários, simpósios, conferências e cursos, tanto no que se refere à terapêutica ocupacional, quanto à importância das imagens do inconsciente na compreensão do mundo interior do esquizofrênico.

Em 1956 a Dra. Nise fundou o primeiro serviço de Egressos (campo das Palmeiras). Nesse serviço, as atividades expressivas eram realizadas por pacientes em regime de externato, tendo sido a primeira instituição que desenvolveu um projeto de desistitucionalização dos manicômios no Brasil. Assim, já nessa época, por intermédio de Nise da Silveira, os pacientes saem das "amarras".

Nise da Silveira é também responsável pela formação do grupo de estudos Carl Gustav JUNG, grupo que preside desde 1968. É também membro fundadora da Sociedade Internacional de Psicopatologia da Expressão, com sede em Paris.

Na literatura Nise é estudiosa de Machado de Assis, autor que foi a ela "apresentado" por seu pai. Desde cedo teve contato com a obra de Spinoza, tendo, inclusive, publicado um livro intitulado "Cartas a Spinoza", que evidencia seu profundo conhecimento sobre o "teórico da loucura".

Por suas atividades políticas, Nise da Silviera foi presa durante o Estado Novo e partilhou cela com Olga Benário, judia que foi entregue à Gestapo de Hitler pelo governo brasileiro. Nise foi também contemporânea de Graciliano Ramos na Prisão, tendo sido personagem do livro e posteriormente filme, Memórias do Cárcere e da novela "Kananga do Japão".

Por reconhecimento à sua obra Nise da Silveira tem recebido condecorações, títulos e prêmios nas mais diferentes áreas do conhecimento: saúde, educação, arte, literatura etc.

juntando-se a tantos, também a revista "Psicologia: Ciência e Profissão "publica a seguir entrevista exclusiva, feita pelo terapeuta ocupacional e professor da Universidade Federal de Pernambuco, Luís Gonzaga Pereira Leal, no dia 28 de julho de 1992, em sua residência no Rio de Janeiro, na qual a Dra. Nise fala de sua vida, sua obra e suas "preferências", em geral.

LG - O que é Mito?

NS - Quem é que sabe. É a expressão do inconsciente, digamos assim. O mito é como uma espécie de trilha. Se você partir do mito, Você chega onde quiser.

LG - Você é uma pessoa que é bastante entusiasmada com o mito de Dionísius...

NS - Não só pelo mito de Dionísius. Sou também entusiasmada por todos os mitos, inclusive pelo mito de Dafne, sobre o qual tenho um trabalho que encontra-se publicado no livro "Imagens do Inconsciente". Os mitos egípcios também. A barca do sol, que aparece nos desenhos de Carlos Pertins. Pouco antes dele morrer, ele pintou o sol num barco. E os egípcios viam o sol todos os dias fazer a volta da terra num barco. O sol, à noite, combatia com dragões terríveis. Não queriam que ele renascesse.

LG - Nos fale um pouco sobre o mito de Dionísius.

NS - Ah! O mito de Dionísius é de grande complexidade. Há várias versões desse mito. Há a versão na qual ele é apresentado como filho de Deméter, segundo uns, ou de Penepólis, segundo outros. E há o mito mais corrente que narra Dionisius como filho de Senele que era filha de um rei; era uma mulher mortal. Dionísius é Filho de Deus nuns mitos; Filho de uma mulher mortal noutros. Cheguei a escrever um trabalho sobre Dionísius, motivada pelas pinturas de internatos do Hospital de Engenho de Dentro. É importante saber que, quando o consciente está sufocado pelo inconsciente, a pessoa passa a se comunicar através da linguagem dos mitos. Foi por isso mesmo que Jung me sugeriu: "Se você não conhecer os mitos jamais entenderá os delírios dos pacientes, nem tampouco as imagens que eles pintam". Disso isto em resposta à minha queixa, de que eu estava muito insatisfeita com o trabalho no Hospital Psiquiátrico de Engenho de Dentro. Eu buscava uma outra coisa. Isto foi por ocasião do II Congresso Mundial de Psiquiatria em 1957, cujo tema central era a esquizofrenia. Fazia parte desse Congresso uma sessão de pinturas e expressões plásticas. Então eu levei um material daqui. Quer dizer: dos internos do Hospital de Engenho de Dentro. Eu já tinha estudado um pouco de Jung, mas não tinha me aprofundado, nem me familiarizado com a linguagem do inconsciente, a linguagem mística que ele tanto preconiza e acha indispensável para que o médico possa atender e, portanto, entrar em relação com o doente através de uma linguagem comum.

LG -Jung, para Você foi uma pista ou um mestre?

NS - As duas coisas. Une mestre e pista.

LG - No entanto Você não é apegada exclusivamente a ele...

NS - Ah! Claro. Eu tenho um encanto por Laing. Porque o que caracteriza meu trabalho em psiquiatria, meu entusiasmo pela psiquiatria, meu apego ao que se chama de psiquiatria, é a pesquisa do mundo interno do processo psicótico. Do que se passa no mundo interno do psicótico, sem desprezar naturalmente o mundo externo, porque nós vivemos simultaneamente em dois mundos, o mundo externo e o mundo interno. Mas o que acontece é que a maioria dos psiquiatras, mesmo atualmente, só valorizam o mundo externo. O movimento Baságlia, que eu aprecio, e estou de acordo de que estes velhos manicomônios que se parecem prisões sejam implodidos, é um movimento que ao meu ver não se ocupa do mundo interno do paciente.

LG - Quer dizer que uma proposta de organização do mundo externo do paciente pouco adianta se o mesmo internamente não possui uma organização?

NS - Não só isto. Ele, o paciente, não entende a linguagem do mundo externo. Eu parto sempre do que o doente diz, escuta ou faz. Nem sempre considero aquilo que os livros falam. Nem mesmo os de Jung. No entanto, há uma grande coincidência no que o doente faz, sente e fala e o que Jung ensina. Por exemplo: Fernando Diniz em certa ocasião falou: "mudei para o mundo das imagens". Fernando era o único desses nossos pacientes que tinha uma cultura maior. Estava fazendo o colegial quando adoeceu. E tinha um racional desenvolvido; entretanto, ele se espantou com suas imagens devido a problemas emocionais. O inconsciente invadiu esse mundo racional onde ele vivia. Então ele diz espantado: "mudei para o mundo das imagens. As imagens tomam a alma da pessoa". Se o próprio doente diz que está tomado pelas imagens, porque você vai continuar buscar entendê-lo exclusivamente através de uma linguagem racional? Ele não vai te entender. Se importa ele em responder: que horas são? que dia é hoje? E outras perguntas semelhantes do mundo externo valorizadas pela psiquiatria tradicional. No prontuário de Fernando Diniz, muitas vezes encontrei escrito: desorientado no tempo e espaço. Entretanto Fernando Diniz lia livros de física atômica. Muitas vezes ia a livrarias acompanhado de um estagiário e escolhia livros.

LG - Voltando a Dionísius. Como você encara a manifestação de Dionísius na atualidade?

NS - Eu vejo que Dionísius está presente, muito presente na atualidade. Mas vejo também que não é o Dionísius dos mitos, nem Dionísius de Netzsche. Ele é um Dionísius muito sombrio, porque a componente "mal" da psique parece que está solta. E essa é a tese que o grupo de estudo atualmente está empenhado em estudar com relação aos meninos de rua. Estuda-se o aspecto social, mas o aspecto social só não dá para explicar tudo. A componente profunda que existe em todos nós -a componente psíquica - está desabrida. Essa componente, segundo Jung, é um dos complexos de oposições, daí ele estudar em um livro perturbador, onde relembra da Bíblia todos os sofrimentos de Jó e os atribui à ausência de um elemento fundamental da psique, que é o elemento feminino, que é a Sófia. Este é um período muito sem amor, muito sem compaixão.

LG - Nesta caso Você entende que o caos, essa turbulência pela qual o mundo está passando, é também uma manifestação de Dionísius "mal"?

NS - Não digo do Dionísius. Dionísius será sempre uma figura manchada pelo mal. Não totalmente. Muito do Dionísius sadio persiste, felizmente.

LG - Como? Em que sentido?

NS - Na música, na dança. Ai de nós se uma grande parte de Dionísius sadio não permanecesse viva. Uma parte da componente "mal", que existe em todos nós, anda se sobressaindo e solta, sem que as outras partes se entrosem e aceitem o mal. Temos de aceitar o mal, mas não deixá-lo solto a ponto de sufocar as outras componentes da psique que são o bem.

LG - Ontem, falávamos sobre os meninos de rua e Você dizia de sua admiração por Joãozinho Trinta...

NS - Admiro Joãozinho Trinta, porque ele é um grande sacerdote de Dionísius. E porque ele procura nesse apoio, nesse amparo que ele dá a tantas crianças de rua, alegria e afeto. Pelo que eu leio, as oficinas de trabalho dele com os meninos são preparos para o carnaval. Enquanto... se você for a um CIESP, não sei, nunca fui, é uma hipótese, poderá estar uma professora, talvez áspera, demasiado racional. Não é que eu preconize o apagamento do racional, mas é preciso que o afeto não seja esvaziado.

LG - Você entende o afeto como uma mola propulsora em tudo...

NS - Exatamente. Uma mola propulsora em tudo.

LG - E me parece que este foi um dos grandes dilemas que Você teve com a psiquiatria: a forma como Você encaminhava o seu trabalho centrado nos afetos, nas canalizações dos afetos e criando assim uma atmosfera afetiva na qual os pacientes pudessem viver...

NS - O meu desencanto com a psiquiatria é pela grande marca que ela tem do cartesianismo.

LG - E a psicanálise?

NS - A psicanálise é o grande elemento de abertura para o inconsciente. Freud era um grande conhecedor dos mitos. Freud sabia muito sobre mitos, mas alguma coisa o amarrava. Não sei exatamente o quê. Ele caminhava, enxergava o mito que estava por traz do problema, mas parava. Ele conhecia muito bem. Em "Moisés e o Monoteísmo", ele faz referência ao inconsciente filogenético, mas não avança. A interpretação do ponto de vista sexual tinha tamanha força que isto o segurava. É isso que Você encontra em todas as interpretações dele. Por exemplo: no estudo que ele faz sobre Leonardo Da Vinci, ele vem como as duas mães, Catarina e Dona Albiera. A relação dele com Catarina, a mãe... Em seguida entra em cena a fantasia que ele acha: Leonardo conta como um sonho, mas que ele acha que não foi um sonho, foi uma fantasia, uma imaginação. Ele associa o seio de Catarina ao fálus e faz então um Leonardo uma certa suspeição de homossexualidade. Pelo menos uma atração, não propriamente uma prática. Freud não se refere a uma prática homossexual, mas uma atração pelo homem. Em um dos meus livros, faço duas leituras do quadro de Leonardo da Vinci. Uma freudiana e outra jungiana. As duas mães aparecem como um tema mítico. Então me dirijo ao mistério de Eneusis, onde estão presentes Demeter, Persefona, e Dionísius. É aí que nascem os mistérios.

LG - Você andou estudando também o Reino das Mães. Do que se trata este estudo?

NS - Estudei sim. Também levada pelos trabalhos dos doentes. Eu prefiro ser conduzida pelo doente. Nas suas produções plásticas pude encontrar mães que vão desde o Neolítico até hoje. Uma doente de nome Adenina, está estudada no livro "Imagens do Inconsciente", através do mito de Dafne. Neste caso pude encontrar as mães do Paleolítico. Mães terríveis, que vão se desdobrando. Elas abrem o peito, mostram o coração e Você chega finalmente à representante da nossa civilização, a mãe Maria e caminha-se talvez para uma salvação, para Sofia. Na Bíblia, você encontra Sofia antes da criação do mundo e Jung acha que o período de Jó simboliza bem, como Deus permite, e muita gente diz, que aconteçam tantas desgraças. Jung, em seus trabalhos, valorizou bastante o princípio feminino. Sobre a Trindade, que conduz do dogma da assunção de Maria.

LG - Ultimamente Você tem manifestado uma certa antipatia pelo nome Terapia Ocupacional. Eu te pergunto: a antipatia é pelo nome em si ou à prática?

NS - Naturalmente pela prática, e isso também eu aprendi com os doentes. Em Terapia Ocupacional exigia-se que os doentes arrumassem, limpassem e varressem o Hospital. Exigia-se muito do doente. Disto eu sempre fui contra isso. Quando assumi a direção da Terapia Ocupacional em 1994, mudei inteiramente essa situação. Criamos oficinas, e nas oficinas os pacientes criavam com toda a liberdade.

LG - Acredito que essas mudanças na Terapia Ocupacional passaram não tanto pela Nise psiquiatra, mas pela Nise pessoa, Nise mulher...

NS - Acredito também. Porque estas mudanças ocorreram muito antes de eu ter um contato maior com a psicologia Jungiana, com anti-psiquiatria. Pretendia que o paciente na Terapia Ocupacional tomasse conhecimento com a matéria. E, outra vez, um paciente me mostrou que eu estava no caminho certo, quando certa vez me ofereceu um coração em madeira e no centro do coração um livro aberto. Quando me ofereceu isso, me disse: "um livro é muito importante, a ciência é muito importante, mas se se desprender do coração não vale nada". Tudo que eu sei de psiquiatria aprendi com eles.

LG - Você é uma pessoa preocupada em estudar literatura...

NS - Eu sou uma pessoa que desde muito cedo cultivei o racional. Tanto que me apaixonei por Geometria. Meu pai era professor de Geometria. Cheguei a Spinoza através da geometria.

LG - Falando em infância, como foi a sua?

NS - Foi felicíssima. Filha única. Mimadíssima. Minha mãe, musicista, tangenciando a genialidade. Meu pai, um homem que lia muito matemática e literatura. Ele tinha uma boa biblioteca. E sendo assim, li Machado de Assis muito cedo.

LG - Você leu Machado de Assis por influência do pai ou por curiosidade?

NS - Porque minha professora de português me fazia analisar. Primeiro foi Camões, que eu odiei. As figuras todas de retórica que ela não ensinava procurei esquecer tudo e odiar. Depois eu fiz as pazes com Camões que é um grande poeta. De Machado o primeiro livro que eu li, estudando português, foi a "Cartomante". O irmão da minha mãe era poeta. Vivia em Recife. Era Pernambucano. Eu sou alagoana. Nasci em Maceió, mas minha mãe e meu pai são pernambucanos. De modo que um dos grandes prazeres meus na infância era irmos a Recife. Então, como não havia televisão nessa ocasião, todo mundo recitava Castro Alves, minha mãe chegou a musicar e cantava com uma bela voz de contralto. Meu avô também me fazia perplexa. Lembro-me dele com uma toalha no ombro caminhando para o banheiro antes de ir para o emprego burocrático que ele exercia, recitando: "Vai Colombo. Abre a cortina de minha eterna oficina e tira a América de lá". Nunca havia pegado num livro, mas de tanto ouvir terminava decorando. Eu não entendia bem, "como é que se vai tirar a América?" Como será isso? (risos). Não perguntava a ele porque ele era uma pessoa austera. Certa vez perguntei a minha mãe e ela me mostrou o livro.

LG - Falando em Recife, que recordações você guarda?

NS - Das minhas viagens.

LG - Por onde você transitava?

NS - Tenho lembranças não muitas. Uma era a irmã do meu pai que morava em Casa Forte. Algumas vezes, nos hospedávamos lá. Era a Campina da Casa Forte. Era um verde enorme. Então ficávamos lá, na casa de minha tia que tinha duas filhas. E havia o colégio da Sagrada Família, onde minha prima estudava pintura. Achava bonito. E a casa do meu avô, pai de minha mãe. Minha avó eu não conheci. Ele morava com uma filha solteira e um filho poeta que já aos 15 anos publicou um livro de versos. Ele teve vários filhos, entre eles um que era predileção minha e da minha família. Era escritor e chamava Léo. É em sua homenagem que este gato se chama Léo.

LG - Falando em fatos, você sempre esteve rodeada por eles. Como é a sua relação com os gatos?

NS - Eu gosto muito de todos os animais. Admito muito o cão. Me sinto humilhada diante do cão. Respeito o cão, porque o cão tem uma qualidade que eu acho belicismo e da qual eu me sinto distante, que é a infinita capacidade de perdoar. Dê um passo que se dê ele é fiel. Nunca se ouviu contar que um cão fizesse um "treta" com seu dono, ou que fosse infiel, que traísse sobre qualquer forma o seu dono. Eu tinha cães em Maceió, porque morava numa casa grande. Com relação aos gatos, de tanto vê-los na rua desamparados, eu ia apanhando e trazendo prá casa. Chequei a ter 23 gatos. O gato não tem essa capacidade de perdoar, como eu não tenho. Eles são muito especiais. No Hospital, introduzi os animais como ajuda para os doentes. Como co-terapêutas. Um analista americano, de quem eu tenho um livro costumava trabalhar com um cão no consultório. Como aliás Freud trabalhava com um cão no consultório; Jung trabalhava com um cão no consultório. Marie Lenize Von Franz, com quem eu fiz análise, trabalhava com um cão no consultório. Aqui o cão não entra nos lugares.

LG - Você teve o número de pessoas que não compreenderam bem o seu trabalho, no entanto Você teve grandes aliados.

NS - Tive excelentes aliados. Tive Mário Pedrosa que foi um grande aliado e incentivador. Tive pessoas da imprensa. A imprensa me ajudou muito. No entanto, poucos médicos foram meus aliados.

LG - O Carlos Drumond de Andrade era também um grande admirador seu.

NS - Ele escreveu uma crônica muito interessante quando me aposentei, e quando foi fundada uma sociedade de amigos do Museu do Inconsciente. Foi preciso fundar uma sociedade, para que o Hospital não o destruísse.

LG - O Ferreira Gullar também...

NS - O Ferreira Gullar foi um grande aliado, que era muito amigo de Mário Pedrosa. Ele quer escrever um livro sobre Emídio, que ele considera o maior pintor brasileiro. Tive muitos aliados. Domitília Amaral, considerada a maior intérprete de Garcia Lorca no mundo.

LG - Vamos brincar um pouco?

NS - Vamos! Eu adoro brincar.

LG - Uma cor...

NS - Minha cor predileta é o azul. E para surpresa minha, uma cor de que eu não gostava e passei a gostar, não sei se por causa de Artaud, Van Gog, Carlos Pertius, é o amarelo. O sol.

LG - Um livro...

NS - É difícil. São tantos. Gosto principalmente dos livros de Machado de Assis.

LG-E a Bíblia?

NS - Gosto muito. Admiro bastante. E gosto muito de ver as aproximações e contrastes entre o Velho e o Novo Testamento. Uma imagem que me impressiona muito neste contraste é a atitude do Antigo Testamento em relação à mulher. Fazia parte da Lei mosaica, Moisés foi o legislador. A mulher adúltera era apedrejada até morrer. No Novo Testamento, você encontra uma cena que eu acho belicíssima. Jesus chega, está andando na rua, atravessando uma praça e está lá uma mulher amarrada para ser apedrejada. Então alguém explica: essa mulher vai ser apedrejada porque foi apanhada em adultério, e a lei ordena que ela seja apedrejada. Jesus olhou para os apedrejadores que estavam ali e perguntou: "Quem de vós está isento de culpa?" Então eles foram saindo de cabeça baixa.

LG - Um mito...

NS - Dionísius.

LG - Uma flor...

NS - A flor de sinete de Spinoza, na qual encontra-se escrito em latim: "Cuidado que eu tenho espinhos".

LG - Uma lembrança...

NS - São tantas. Talvez a minha mãe sentada ao piano lá de casa, esperando que chegasse o sabiá; é um pássaro curioso. Hoje ele não subsistiria. As pessoas por muito menos matam os pássaros. O sabiá é boêmio. Não vai para o ninho cedo, e canta de noite. Minha mãe com as mãos no plano esperando que o sabiá chegasse para aprender a melodia do seu canto. Depois ela achou que estava tão próxima realmente do canto do sabiá que resolveu acompanhá-lo.

LG - Uma tristeza...

NS - A morte do meu pai. Uma perda imensa. Era muito ligada a ele. Embora eu admirasse minha mãe por esse lado de artista dela, era com meu pai que tinha uma ligação mais estreita. Um édipo caprichado.

LG - Uma emoção...

NS - São tantas. Ver por exemplo, um esquizofrénico que não se relacionava com pessoa alguma, vê-lo abraçado com um cão, mostrando que a afetividade está viva no esquizofrênico, enquanto os livros dizem que a afetividade está embotada. Uma destas fotografias, está no meu livro o "Mundo das Imagens".

LG - Uma saudade...

NS - Da minha casa em Maceió. Até me lembro dos versos de um poeta que diz assim: "minha mãe, é em ti que eu penso, oh! casa". Esse é um dos motivos porque eu me recuso a ir a Maceió, prá não ver essa casa.

LG - E se tivesse que voltar?

NS - Voltava certa de que ia ter uma emoção muito forte.

LG - É um tempo mítico?

NS - Acho que sim. Acho que Maceió prá mim é um mito. Uma cidade mítica que estragaram completamente querendo imitar Copacabana. Eu adoro Maceió. Tenho medo de ir a Maceió.

LG - Quais são os teus medos?

NS - Não saber morrer como um gato, embora a morte propriamente não me faça medo. É não saber como morrer como os gastos sabem. É isso que peço que eles me ensinem. Um gato, quando não quer saber de uma pessoa, levanta a cauda e sai. Não parece que esteja com emoção de raiva como eu fico às vezes. Desprezo. Sutileza completa. Eles são grandes mestres.

Nise da Silveira, por Rose Valverde
LG - Uma personalidade...

NS - Todo mundo é uma personalidade. Dessas que um pouco que Você encontra a personalidade. As pessoas geralmente vivem recobertas pela Persona, que é a máscara do ator. As pessoas vivem representando com as roupas do ator.

LG - Uma música...

NS - Resumindo eu diria: "As quatro estações" ou então, o canto do sabiá.
LG - Prá encerrar o que Você gostaria de dizer.

NS - Gostaria de dizer que o mal que está solto no mundo atualmente, dentro da complexidade da psique, recuasse um pouco, diante dos seus opostos.

LG - Esse mal está em todos nós.

NS - Em todos nós e nunca será destruído.  

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Originalmente publicado em: LEAL, Luiz Gonzaga Pereira. Entrevista com Nise da Silveira. in: Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 14, nº 1-3, 1994.

Texto e imagem reproduzidos do site: elfikurten.com.br

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Psicologia é uma Relação de Ajuda!


A Psicologia é uma Relação de Ajuda! 

A Importância do Papel do Psicólogo para a vida das pessoas.

A PSICOLOGIA estuda os fenômenos psíquicos e do comportamento humano através da análise das emoções, suas ideias e seus valores. O psicólogo faz o diagnóstico, previne e trata as questões relacionadas a distúrbios emocional e de personalidade, como também transtornos mentais. Ele observa e analise as atitudes, sentimentos e os mecanismos mentais do paciente e procura ajudá-lo a identificar as causas dos problemas, integrar emoções e resignificar quando necessário seu repertório de memória emocional e desta forma reformular padrões disfuncionais e não adaptativos de comportamentos.

O que é a Relação de Ajuda?

“A Relação de Ajuda pretende dar ao indivíduo oportunidade para se conhecer como realmente é, aceitando o seu próprio processo de vida e nele se inserindo, a fim de utilizar os recursos pessoais que as experiências lhe oferecem para transformações construtivas de atitudes e comportamentos”.

Franz Victor Rudio.

Texto e imagem reproduzidos do site: catarinaquirinostocco.com.br

A Importância do Trabalho do Psicólogo na Vida das Pessoas


Publicado originalmente no blog da Psicóloga Evandra Lídia, em 22 de fevereiro de 2017.

A Importância do Trabalho do Psicólogo na Vida das Pessoas. 
Por Evandra Lídia. 

  O trabalho do psicólogo é muito importante e deve ser respeitado. Nossa principal função é trabalhar nas queixas associadas a conflitos internos do paciente, conflitos estes que geram incômodos para o próprio paciente e para as pessoas que fazem parte do convívio social do mesmo.
O psicólogo, através da psicoterapia, busca junto com o paciente enxergar a origem dos conflitos, entendendo suas funções e discutindo com o paciente a forma pela qual o mesmo trata essas questões.

Fazer psicoterapia não é vergonha, é força.

Força para mudar, força para resolver, força para amar (a si e aos outros). E este trabalho tem se tornado peça chave para a sobrevivência humana, pois em um mundo onde os recursos digitais deveriam facilitar o contato com outras pessoas, acabam nos deixando vazios e desgostosos. Uma prosa é trocada por um “like” ou “views” nas redes sociais. E com isso as pessoas vão se distanciando umas das outras, apesar de estarem no mesmo cômodo, talvez.

 O psicólogo então se torna eficaz na vida do ser humano, diagnosticando, prevenindo e tratando doenças mentais, distúrbios emocionais e de personalidade. É através deste profissional que o paciente terá suas atitudes, sentimentos e mecanismos mentais analisados. 

Então qual é o momento certo para procurar ajuda psicológica?

É o momento no qual você percebe que não dá mais para segurar sozinho, e a palavra psicoterapia já não se torna mais assustadora, afinal de contas nem todas as respostas se encontram no Google.

Você merece ter um bom relacionamento? Aumentar sua autoestima? Ser menos ansioso? Entre outras questões? Então esta é a hora. Os benefícios da psicoterapia são muitos, dentre eles: conhecimento de si mesmo; desenvolvimento pessoal; aumento da autoestima; motivação; superação de conflitos internos; compreensão dos limites, potencialidades, ações a atitudes.

A melhor maneira de identificar a necessidade de ajuda psicológica é perceber o quanto de prejuízo está acontecendo em sua vida por conta das dificuldades emocionais, comportamentais ou cognitivas que você vem sofrendo. Você precisa se permitir achar um tempo para ouvir e falar de você. Segundo Carl Gustav Jung, o principal objetivo da terapia psicológica não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece num equilíbrio entre a alegria e a dor. Quem não se arrisca para além da realidade jamais encontrará a verdade.

Se você estiver encontrando dificuldades para se equilibrar emocionalmente, então está sim na hora de procurar ajuda psicológica. Liberte-se daquilo que o aprisiona emocionalmente. A psicoterapia é um aprendizado a seu próprio respeito, sobre você e o funcionamento da sua mente.

Então porque algumas pessoas não buscam ajudam psicológica? Muitos acreditam que é melhor “deixar pra lá”; outros colocam como “eu não consigo resolver” e nos piores casos muitos se escondem na frase “Deus quis assim”. Estes pensamentos limitam você. Se você deixar pra lá, nunca vai saber se existe um outro caminho; se você acreditar que não consegue resolver, nunca vai descobrir a verdadeira capacidade que você possui; e se você acredita que “Deus quis assim”, saiba que Deus deu a cada um de nós o livre-arbítrio, então não é Deus que está querendo assim e sim você.  Não vale a pena adiar a procura pela cura e alívio dos sofrimentos emocionais.

Permita-se. Faça psicoterapia.

Texto e imagem reproduzidos do blog: psicologaevandralidia.blogspot.com.br

Como a psicologia pode nos ajudar a ter uma vida mais plena e feliz?

Imagem reproduzida do site: jrmcoaching.com.br
Postada para ilustração do artigo, por Equilíbrio Neural.


Postado originalmente no site  Gluck Project, em 10 de Março de 2014.

Como a psicologia pode nos ajudar a ter uma vida mais plena e feliz?

Muitos leitores do Glück nos pedem dicas práticas de como levar uma  vida mais feliz. Baita responsabilidade, né? 🙂 Em alguns textos, nós tentamos compartilhar descobertas da nossa investigação, mas a verdade é que não existe uma fórmula única para a felicidade. O principal, pelo que temos estudado, é buscar o autoconhecimento. Sim, essa frase que pode soar engraçada (e te lembrar disso), parece uma das poucas unanimidades sobre a felicidade. Procurar se conhecer melhor; saber quais são seus desejos, quais são seus medos, quais são as pequenas coisas que fazem você feliz. Descobrir o que o motiva a agir como você age no dia-a-dia. Procurar pensar menos no que os outros pensam de você.

Mas como é que eu faço para encontrar esse tal autoconhecimento? Bom, com certeza você não vai poder comprar autoconhecimento na farmácia ou no seu site de downloads favorito. Uma coisa que ajudou bastante – tanto para mim, quanto para a Karin – foi a terapia. Isso mesmo: terapia, análise, aquela hora semanal que você passa com um psicólogo. No começo rola um certo preconceito do tipo: “terapia é coisa de maluco”, “eu não preciso disso, não sou doente” ou “se for pra pagar alguém pra me ouvir falar, eu vou pro bar com meus amigos”. Mas terapia não é coisa de maluco. Ela tanto pode te ajudar a resolver um problema pontual, quanto pode ser uma jornada em busca do autoconhecimento e de uma vida melhor.

Pra falar de terapia e psicologia, eu entrevistei os psicólogos Waldemar Magaldi e Otavio Dutra. O Waldemar Magaldi é psicólogo com mestrado e doutorado em Ciências da Religião,  autor do livro  “Dinheiro, saúde e sagrado” e coordenador do curso de pós-graduação oferecido pelo IJEP – Instituto Junguiana de Ensino e Pesquisa. O Otavio Dutra de Toledo é formado em Medicina, estudou psiquiatria e  hoje se dedica à psicologia. Ele fez pós-graduação em Gestalt-terapia e a abordagem arquetípica de Jung e é professor do curso de Gestalt-terapia do Instituto Sedes Sapientiae.

No papo com os dois, falamos de felicidade, autoconhecimento remédios, depressão e inveja.

Waldemar: O processo psicoterapêutico não é uma panaceia e nem o caminho único e obrigatório para a conquista do autoconhecimento, que é o verdadeiro meio para a felicidade. Existem várias possibilidades para que isso venha acontecer, mas todas elas exigem uma relação intersubjetiva. Ou seja, ninguém pode transformar ninguém, mas ninguém se transforma sozinho…

Otavio: A terapia pode ser tanto uma atividade guiada para um sofrimento específico quanto uma prazerosa busca sobre quem se é verdadeiramente. Na minha maneira de trabalhar, que usa a Fenomenologia, a terapia é uma procura feita a dois, pois cada pessoa é única e sobre ela não deve haver preconceitos. Esta segunda modalidade serviria a todos que se dispusessem ou tivessem vontade de  conhecer melhor a si mesmo e a sua maneira de se relacionar. Lembra uma variante da velha piada da lâmpada : quantos terapeutas são necessários  para se trocar uma lâmpada? Resposta : Um só, mas a lâmpada precisa querer muito ser trocada. Em resumo, só serve para quem quer e precisa ou para quem apenas quer.

Como a psicologia pode ajudar as pessoas a aplacarem suas angústias e terem uma vida mais feliz?

Waldemar: Na visão da psicologia junguiana o ser humano tem que lidar com duas dimensões bem distintas que, de acordo com o modo de vida, podem ficar antagônicas, gerando angústia, neurose e até sintomas. De um lado temos a dimensão biológica, responsável pelo instinto da fome, proteção e reprodução e, por ser muito objetiva e materialista, acaba sendo dominante e alinhado com a produção científica. Do outro lado temos a dimensão anímica e espiritual, onde reina os arquétipos e o inconsciente coletivo, que leva o indivíduo a buscar sentido e significado para a existência, conectando-o com os mistérios, produzindo artes e religiões.

O processo da psicoterapia leva a pessoa a integrar esses dois universos, fazendo-a contemplar simultaneamente o bom, o belo e o verdadeiro – religião, arte e ciência, respectivamente. Por isso, a felicidade só é alcançada quando o corpo estiver pleno, as relações afetivas e emocionais equacionadas e o sentido da vida atingido. Caso contrário, o aspecto que estiver negligenciado aparecerá como sintoma, podendo surgir as crises psíquicas e ou somáticas.

Freud dedicou um bom espaço do “Mal Estar da Cultura” à felicidade, né? Como as principais correntes da psicologia definem a felicidade?

Otavio: Vou responder baseado na Gestalt-terapia (que é uma das linhas da psicologia que mais estudei): Para ser feliz você deve estar vivendo o momento presente, em contato com as suas próprias necessidades, atento ao que o mundo te oferece e com uma fronteira semi permeável que te permita ser invadido pelo que te faz bem e que ao mesmo tempo te proteja daquilo que possa ser tóxico.  Sem me preocupar com as linhas, eu diria que é comer com fome, beber com sede, ter boas e diversificadas  trocas com os outros … É saber o que se deseja (e curtir o caminho em que nos arriscamos a obter a sua satisfação, um caminho com esperança e maleabilidade para aceitar o que for possível, o inesperado – que eu nem sabia que desejava) e também é desejar o que se tem e se conquistou .

Waldemar: Freud era preponderantemente materialista, por isso acentuou na sua teoria a questão do instinto sexual como razão ultima da existência, em busca do princípio do prazer.  Por isso, ele afirmava que as religiões eram prejudiciais, porque obliteravam a razão, único caminho para o bem estar. Atualmente as práticas psicoterapêuticas estão sendo obrigadas a incluir as questões sociais, culturais e espirituais nas suas abordagens.

Muitas matérias jornalísticas chamam a atenção para a quantidade de brasileiros que toma antidepressivos e alardeiam que a depressão (assim como a ansiedade) é um grande mal moderno. Concordam com essa afirmação?

Otavio: Eu acho que o mal moderno é a ansiedade que exaure a pessoa e muitas vezes leva à depressão; (é) um modo de vida que privilegia a produção e otimização em detrimento da fruição. Você tem que chegar logo, os meios de transporte são rápidos (mas aqui em São Paulo não andam, gerando terrível angústia em todos). Muito dos sofrimentos psíquicos do homem contemporâneo vem do modo de vida contemporâneo, então, em certa medida, criamos remédios para males que nós mesmos inventamos. Mas a depressão sempre existiu,  a ansiedade também, há quem nasça com forte tendência a sofrer com eles, estes tiveram mais sorte em nascer nos dias atuais. (Não se deve menosprezar os sofrimentos do passado, exemplo clássico : dentista com ou sem anestesia)

Waldemar: Para mim a depressão é um sintoma contemporâneo que denuncia a dessacralização e o desencantamento da vida. O excesso de ciência materialista, redutiva e causal, está produzindo esse sintoma que leva as pessoas a ir para dentro (de-pressão). Pararem de se direcionarem apenas para fora, para cima e para a frente, deixando de lado o mundo interior, o que ficou para trás e o que está na imanência ontogenética da humanidade. O mundo, e não apenas o Brasil, consome uma infinidade de produtos psicoativos na forma de excitantes, calmantes, antidepressivos, reguladores do humor, indutores do sono, aditivos para a concentração, etc. Isso acontece porque as pessoas não conseguem lidar com a angustia da falta de sentido, se afastaram das religiões, no seu aspecto verdadeiro que deveria ser religação para o autoconhecimento, estimulando todos a um contínuo comportamento egoísta, individualista, materialista, competitivo e cumulativo.

Como acredito que todo sintoma é uma expressão simbólica que denuncia uma ferida de amor próprio e a desarmonia entre o corpo e a alma, vejo na depressão um sintoma coletivo e uma janela de oportunidade para que aconteça uma mudança no estilo de vida contemporâneo. Por isso, a medicalização, sem o processo psicoterapêutico, coloca em risco o agravamento desta situação.

E como os remédios psiquiátricos podem ajudar as pessoas?

Otavio: Considero os medicamentos um arsenal de enorme valia, embora não sejam indicados (nem ajudem) em diversos casos. Há ainda sérios efeitos colaterais que precisam ser considerados (como o esfriamento da libido em quem toma antidepressivos ), mas são de enorme valia em pessoas com a vida muito limitada ou, pior, sem vontade de continuar vivendo. Some-se isso ao fato de que agem de maneira diferente em cada organismo, o que leva a momentos de tentativa e erro até a escolha da substância mais adequada para aquele organismo. Até agora, no tratamento de depressões moderadas a graves, o melhor tratamento é a combinação de fármacos com a psicoterapia (comprovado em estudos com populações onde há significante vantagem no tratamento combinado em relação a qualquer um dos dois tipos de tratamento separadamente) .

Waldemar: Medicar, sem obliterar a consciência, e estimular o processo do autoconhecimento é um caminho saudável. Porém, infelizmente, por conta da falta de tempo e da pressão econômica, os profissionais de saúde deixaram de medicar e passaram a “medicalizar”, criando rótulos psicopatológicos com intuito de manter as pessoas alienadas e comprometidas com o consumo. Somos condicionados desde cedo a ir ao shopping para comprar o que não precisamos, com o dinheiro que ainda não temos, para impressionar quem não conhecemos e fingir ser quem não somos. E, se por alguma razão isso deixar de acontecer o indivíduo é enquadrado em algum psicodiagnóstico e terá que consumir algum medicamento psicoativo, preferencialmente de forma obsessiva e compulsiva, para manter as pessoas dependentes e, consequentemente, garantir o faturamento da indústria da saúde.

Recentemente um post americano sobre a Geração Y fez muito sucesso nas redes sociais. Esse post dizia que essa geração foi criada com altas expectativas e julgando-se especial. A “vida adulta real” teria deixado os Y frustrados e angustiados. Você acha que essa teoria faz sentido? Por que muitas vezes a felicidade alheia nos provoca raiva e frustração?

Waldemar: Até a geração X a expectativa materialista forçava, equivocadamente, as pessoas acreditarem no “ter para ser”. Porém, com incapacidade capitalista para a redistribuição de renda, o ter foi ficando cada vez mais inviável. Neste momento surge a geração Y, desapegada dos vínculos, muito impaciente em obter resultados e com uma nova crença, igualmente equivocada, que é a do “aparecer para ser” e nesta direção que surgem as mídias sociais, dando a possibilidade para o indivíduo aparecer, mas como isso só não basta, os sintomas depressivos começam a surgir, mesmo com cinco mil amigos me seguindo no Facebook. Por isso, quando alguém conquista algo de fato, por inveja, a maioria fica com raiva…

Otavio: Começo comentando o texto da geração Y que eu já havia lido e achado simples, inteligente, lógico e escrito com bom-humor. Continuo achando tudo isso, só não concordo que seja a equação definitiva, mas a comparação de duas das mais importantes variáveis de uma bem  mais ampla e irregular equação. Fazendo uma comparação, seria tentar entender uma população de pessoas com sobrepeso através das variáveis “ingestão de calorias” e “variação do peso corporal” ( sim, são diretamente proporcionais – aumentou a primeira, aumenta a outra, se o indivíduo comer mais, ele ganhará peso). Mas estaríamos ignorando outros fatores como a quantidade de exercício físico, o funcionamento do metabolismo,o equilíbrio entre os hormônios, a capacidade de absorção, etc. No texto da geração Y, as variáveis são inversamente proporcionais: quanto maior a expectativa, menor a felicidade, maior a frustração .

Ainda sobre o tema “inveja”, que luz a psicologia pode jogar sobre o preconceito? Por que uma parcela significativa das pessoas não aceita que alguém seja feliz se for diferente?

Waldemar: Todo ser humano é único, complexo e criativo e, por isso mesmo, é diferente! O que acontece é que por conta da falta de autoconhecimento as pessoas ficam inseguras e, diante do mais diferente elas tentam transformá-lo em desigual. Esse é o problema da intolerância! O medo daquele que é mais diferente produz o sentimento de desigualdade, como mecanismo de defesa, e aí acontece o abuso, a falta de ética e as relações de escravidão.

A inveja, por sua vez, é relativa ao desejo de destruir o que o outro conquistou, porque no fundo o invejoso sabe que não seria capaz de conquistar o mesmo. Assim ele fica menos diminuído e, consequentemente, frustrado com sua incapacidade.

Texto reproduzido do site: gluckproject.com.br